Meningite: a epidemia censurada na ditadura militar

Meningite é uma inflamação das meninges, as membranas que recobrem o cérebro e a medula espinhal no interior da coluna vertebral.

É causada principalmente por agentes infecciosos – bactérias, vírus e fungos.

Portanto, há meningites bacterianas, virais e fúngicas.

De tempos em tempos, a doença entra em evidência, especialmente a meningocócica, causada pela bactéria Neisseria meningitidis, ou meningococo.

Em 1971, nas áreas mais pobres da cidade de São Paulo, eclodiu uma epidemia.

O Brasil vivia o período mais violento da ditadura militar. No comando do governo, o general Emílio Garrastazu Médici.

Foi a época do “milagre econômico” e o auge da repressão, da tortura e da censura nas artes (música, teatro, cinema, literatura), televisão e imprensa.

“As autoridades consideravam a epidemia um fracasso. Logo, empanava o brilho do ‘milagre econômico’. Por isso, optaram por negá-la’’, observa o médico epidemiologista José Cássio de Moraes, professor-adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em entrevista exclusiva ao Viomundo, em 2009 (reproduzida na íntegra, ao final).

Em português claro: esconderam da população.

Para isso, os médicos foram proibidos de dar entrevistas sobre o assunto e a imprensa, de noticiar.

Em Surto de meningite e as lições de Stalin, publicado no Observatório da Imprensa de 6 de janeiro de 2015, Observatório da Imprensa, o jornalista João Batista de Abreu, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma:

Partia-se do princípio de que quanto menos a população civil soubesse sobre a dimensão do perigo, menor seriam as consequências para a ordem política e as cobranças por medidas eficazes.

Para estes generais e coronéis no poder – e nunca é demais lembrar, também aos civis que se prestavam a este serviço nos órgãos de censura – , o controle da informação se sobrepunha ao controle da meningite.

Resultado: a doença foi se espalhando, sem que a população tivesse qualquer ideia sobre o risco que corria.

Das zonas mais pobres da cidade de São Paulo, a epidemia de meningite meningocócica avançou para as áreas mais ricas da capital. Depois, para outras regiões do Estado.

Daí, se alastrou para o restante do País.

O ápice foi em 1974, quando explodiu em todo o Brasil.

Cássio de Moraes relembra: “Só em 1974, no município de São Paulo, foram 12.330 casos e cerca de 900 óbitos”.

Apesar da situação, a letalidade, que de 1970 a 1972 variou entre 12% e 14% dos casos, a partir de 1973 declinou acentuadamente, atingindo o valor mais baixo (7%) em 1974. O maior número de óbitos foi observado em 1975, quando foram registrados 411, média de 1,15 ao dia. A letalidade da meningite tende a diminuir exatamente nos momentos epidêmicos, em decorrência do diagnóstico precoce e da introdução oportuna de tratamento.

A troca de presidente, com a entrada do general Ernesto Geisel, em 1974, facilitaria a mudança de atitude das autoridades. Em julho de 1974 foi criada a Comissão Nacional de Controle da Meningite, encarregada de traçar a política de vigilância epidemiológica. O número de casos registrados em janeiro de 1975 foi seis vezes maior do que o mesmo mês de 1974. Ironicamente, a meningite que tem o início de sua história na contaminação de soldados em postos militares, parecia não querer dar tréguas ao regime.

Em março de 1975 foi elaborado o plano básico de operações para garantir a vacinação de 10 milhões de pessoas em apenas quatro dias. A parte operacional da campanha esteve a cargo do exército. O esquema adotado durante a campanha não permitiu que fosse fornecido qualquer comprovante às pessoas vacinadas, nem o registro do número de vacinados. O número de casos continuou muito acima do registrado no ano anterior até abril, quando foi realizada a campanha de vacinação. Para conhecer a proporção de vacinados, o IBGE realizou um inquérito por amostragem domiciliar. A cobertura foi estimada em cerca de 93% na cidade. Após a campanha os casos diminuíram, mas só retornaram a valores endêmicos dois anos depois. Até julho de 1977 ainda eram registradas incidências acima do esperado. A partir desse ano, os casos provocados pelo sorogrupo A deixaram de ser identificados; enquanto os produzidos pelo sorogrupo C retornaram ao nível endêmico. São Paulo retornou à rotina. Apesar dos inúmeros problemas, a cidade estava livre, pelo menos dessa epidemia.


Da periferia para o centro

A epidemia progrediu de forma concêntrica das áreas periféricas para o centro, em ondas, sem que os distritos anteriormente atingidos deixassem de apresentar alta incidência de meningite. No primeiro semestre de 1974 não havia uma única área da cidade sem registro de casos. As regiões mais pobres apresentavam maior risco. Durante a década de 70 houve uma expansão acelerada de favelas. Em 1957 São Paulo tinha 141 favelas, em 1973 esse número cresceu para 525. Nesse período a zona sul era a região com a maior concentração de população favelada do município. Com o avanço acelerado da miséria, era natural que as doenças se alastrassem. Em maio de 1971, começando pelo distrito de Santo Amaro, a epidemia de meningite progredia para os bairros contíguos. Em novembro de 1971, irrompeu na zona leste, começando pelo distrito de São Miguel Paulista – o último distrito a ser afetado na região foi a Penha.

Em junho de 1972 era a vez da zona norte, começando por Santana e Tucuruvi – um ano e meio depois, todos os seus distritos apresentavam incidência epidêmica. Na zona oeste, o primeiro afetado foi a Lapa, 25 meses depois do início da epidemia na zona sul. A progressão da doença nessa área levou apenas 10 meses. Finalmente chegou ao centro em setembro de 1973, espalhando-se por todos os seus distritos em apenas 11 meses. A incidência, durante o período de 1970 a 1977 variou entre 13,04 casos por 100 mil habitantes no distrito da Aclimação (centro) a 101,28 na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte).

Capa da revista Veja de 4 de outubro de 1972

Limitações e omissões

Embora as autoridades sanitárias negassem a existência da epidemia, os médicos da Secretaria de Estado da Saúde tentavam controlar a doença em duas frentes: aprimorando o conhecimento sobre a quimioprofilaxia e avaliando a eficácia de novas vacinas. Os militares norte-americanos que estavam no Vietnã, maior grupo de risco, eram vacinados contra o meningococo C desde 1971. Em 1972, a vacina foi testada em São Paulo em crianças de seis meses a seis anos. Apenas produziu resposta imunológica para crianças a partir de dois anos. Nesse período, a distribuição etária da doença, quando comparada ao período endêmico, apresentou alterações. Deslocou-se em direção a grupos etários mais velhos, embora as crianças menores de cinco anos ainda fossem o grupo de maior risco. Em 1974, a distribuição etária se alterava mais uma vez, com aumento de incidência entre as faixas etárias de 15 a 29 anos. Essa tendência acentuou-se ainda mais e as taxas atingiram níveis escandalosamente altos: 563 casos por 100 mil habitantes em menores de um ano e 51 casos em pessoas com 50 anos ou mais. Tal tendência foi resultado da sobreposição das duas ondas epidêmicas. A distribuição etária da letalidade também sofreu modificações. As taxas mais altas continuaram entre os menores de um ano, mas houve elevação no grupo de 10 a 14 anos e redução nos grupos acima de 19 anos.

O aumento da incidência nos grupos acima dos 14 anos ocorreu apenas no sexo masculino. Provavelmente, pela maior exposição a situações de risco de transmissão relacionadas ao trabalho.

Fontes:

Cremesp

Viomundo

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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