A luz azul na cromoterapia – tranquiliza ou é Efeito Placebo?

A luz, enquanto entidade de estudo, está na minha vida desde a época da graduação, o que pode parecer óbvio porque cursei física. Enquanto estudava a dualidade da radiação eletromagnética com a saudosa Profa. Dra. Ester R. Vitale na PUC-SP, terminava o curso técnico instrumental em piano com o Maestro Marcus Carvalho no Conservatório Musical do Tucuruvi. Além de erudito, o maestro exibia grande curiosidade por filosofia e esoterismo. Com ele tive a oportunidade de conhecer sinestesia sonora – a capacidade que algumas pessoas possuem de associar a sensação de uma cor para cada som. Foi o suficiente para que durante anos eu pesquisasse esse tema enquanto estudava a natureza da luz.

Para Jorge Antunes, em Basbaum, 2002 (Sinestesia, arte e tecnologia) a correspondência entre som e cor não se dá no plano do fenômeno físico, mas pela ressonância em neurônios do nervo óptico, das vibrações dos impulsos nervosos no nervo auditivo. Foram-se uns 15 anos para que eu entendesse este fenômeno, mas nem por isso ele deixou de me encantar.

A luz continuou na minha vida por diferentes caminhos. Na graduação de Física Médica, curso em que ministrei aulas durante muitos anos, a disciplina Física das Radiações tem um espaço enorme para o estudo da interação da luz com a matéria orgânica. Não é para menos: o potencial da fotomedicina é enorme e está em plena fase de desenvolvimento e aperfeiçoamento.

A fotomedicina envolve a aplicação de luz em diferentes intervenções no corpo humano.

O LASER, por exemplo, é muito utilizado em cirurgias e também em tratamentos dermatológicos. LASERs de diferentes comprimentos de onda e potência podem ser utilizados para cortar, cauterizar tecidos e cicatrizar feridas. Um ramo muito importante dessa linha é a terapia fotodinâmica, que associa a luz do LASER às substâncias fotossensíveis para a destruição de células no tratamento de câncer de pele. Vale ressaltar que o LASER vem sendo gradativamente substituído por fontes de luz LED, cuja banda de comprimentos de onda e potência podem ser bem controlados.

 Já as fontes mais brandas de luz são utilizadas em fisioterapia, em tratamento da dor e em cromoterapia.

Faz muito tempo que a radiação infravermelha – IV – é utilizada em fisioterapia como um agente térmico superficial usado para alívio da dor e rigidez, para aumentar a mobilidade articular e favorecer a regeneração de lesões de tecidos moles. O IV se enquadra na categoria de termoterapia superficial por conversão de energia eletromagnética em calor. A elevação da temperatura local superficial, aumenta o fluxo sanguíneo na área aquecida, aumenta a drenagem linfática e venosa, vasodilatação e diminui espasmos musculares.

Mas a introdução de fontes de luz LED para o tratamento da dor vem recebendo grande atenção dos pesquisadores nos últimos tempos. Um remédio digital à base de luz é o objetivo do trabalho do físico brasileiro Dr. Marcelo Sousa e de outros pesquisadores que fazem parte de uma startup de fotomedicina. A meta é desenvolver um sistema de inteligência artificial capaz de encontrar quanto de luz (ou energia chegando no destino final) deve ser fornecido para cada condição e cada paciente, a fim de obter o melhor resultado terapêutico. Fatores como cor da pele (quanto mais escura, mais luz é necessária), obesidade (a gordura atrapalha o espalhamento da luz no organismo), sexo e faixa etária influenciam no resultado. Esse segmento da fotomedicina, no qual luz é usada para melhorar as funções de um sistema biológico, recebe o nome de fotobiomodulação. Podemos dizer que a fotobiomodulação baseia-se na interação da luz com os tecidos estimulando os processos fotoquímicos e fotobiológicos  em nível  mitocondrial aumentando o metabolismo celular.

A cromoterapia é uma terapia bem antiga e, como o nome diz, utiliza diferentes comprimentos de onda de luz para tratamento. É interessante que a cromoterapia tem sido indicada como terapia alternativa desde o século XVIII quando o cientista alemão Johann Wolfgang von Goethe conduziu uma pesquisa exaustiva a respeito das cores, concluindo que o vermelho estimula, o azul causa tranquilidade, o amarelo causa alegria e o verde é relaxante. Por ser associada ao esoterismo, a cromoterapia sempre foi considerada pseudociência – Efeito Placebo. E foi assim que eu tratei a cromoterapia ao longo desses anos. Como pseudociência.

Mas agora, um novo estudo da Universidade de Surrey (Reino Unido) e da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf (Alemanha) sugere que a exposição à luz azul é um tratamento não farmacológico eficaz para a hipertensão. Os pesquisadores descobriram que a exposição à luz azul reduziu significativamente a pressão arterial sistólica dos participantes em quase 8 mmHg, enquanto a luz de controle não teve impacto.

O que é ainda mais notável é que essa redução da pressão arterial é semelhante à observada em ensaios clínicos com medicamentos.

 Além dos efeitos de diminuição da pressão arterial, a exposição à luz azul melhorou outros marcadores de risco cardiovascular, incluindo redução da rigidez arterial e aumento do relaxamento dos vasos sanguíneos. Assim, os cientistas concluem que a luz azul tem um impacto positivo na saúde das pessoas.

Como diria Goethe, a luz azul tranquiliza!

Talvez seja uma questão de tempo e as novas técnicas de medição bastante precisa dos diferentes parâmetros de saúde humanos permitam concluir que a cromoterapia não é pseudociência como tem sido classificada.

Por outro lado, as mesmas fantásticas técnicas de medição nos levam a outros efeitos causados pela luz no corpo humano. Recentemente, escrevi um artigo para a Revista Lume Arquitetura sobre as descobertas mais recentes dos problemas que a luz azul pode causar ao olho humano. A revista se interessou pelo tema porque o mal dimensionamento da iluminação artificial, rica em lâmpadas LED cujo espectro possui uma grande contribuição do comprimento de onda de azul, pode interferir em nossa saúde visual.

A exposição excessiva à luz azul contribui para uma lenta perda de visão ao longo da vida conhecida como degeneração macular.  A degeneração é uma velha conhecida dos oftalmologistas, mas só recentemente os cientistas conseguiram explicar. Então, o uso da luz azul para redução da pressão arterial precisa ser monitorado e ministrado da forma adequada.

Eu sigo estudando a luz – sua natureza e seus efeitos – e a cada dia me surpreendo mais. Se a luz é importante porque moldou os sensores eletromagnéticos dos seres vivos deste planeta, e por consequência, possibilitou que o homem a utilizasse como ferramenta de interação, o que dizer da sua importância enquanto remanescente de um universo cujo surgimento ainda não nos é totalmente conhecido? Conheceremos?

Estarei aqui para “ver”?

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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