Astrofísica e Pirâmides

Sim, eu li “Eram os Deuses Astronautas?” (Erich Von Daniken, 1968) e amei! Eu tinha 14 anos e era estonteante imaginar extraterrestres trazendo tecnologia para a Terra para construir pirâmides, entre outras coisas. As “provas” apresentadas eram perfeitamente coerentes com o meu pequeno mundo. Com 17, li Isaac Asimov, “O Colapso do Universo”, de 1977.  O livro foi indicado pelo prof. de física do colégio à uma colega que ficara de recuperação. O trabalho de recuperação era fazer o resumo do livro. Li o livro para ajudá-la a fazer o resumo, então devo agradecer imensamente à ela por ter ficado de recuperação, pois o colapso causado em meu universo foi incrível! Acho que meu cérebro sofreu uma explosão de sinapses equivalentes à explosão de uma supernova, tamanha foi a alteração na minha maneira de ver o universo depois do livro.

Sim, eu li livros sobre pirâmides, sobre arqueologia, sobre magia, sobre física, astronomia e música antes da faculdade. Não, talvez eu não seja “deste mundo”, pois minha mãe dizia que eu estava “no mundo da Lua” o tempo todo.

A astrofísica evoluiu rapidamente nos últimos 30 anos e o livro do Asimov está ultrapassado. Mas a maneira como ele explicava a evolução das estrelas e os buracos negros continua encantadora!

As hipóteses de Von Daniken foram refutadas lentamente, ao longo dos anos, por resultados de experimentos de alta precisão que mostraram as técnicas usadas na construção das pirâmides. Hoje, seu livro é considerado uma farsa. Mas as pirâmides continuam lá! Um pouco desgastadas e sem o brilho das pedras calcárias de 4000 anos atrás (egípcias).

Pirâmides e astrofísica, qual a relação entre elas?  Por que lembrei de Von Daniken e Asimov?

Entender como os egípcios construíram as pirâmides não significa entender todos os objetivos e demandas da época de Faraós e sacerdotes. Ainda há muito para entender. Para isso é necessário conhecer toda a estrutura interna de grandes pirâmides que ainda estão intactas. Métodos invasivos macroscópicos destroem parte da estrutura. Então o jeito é “bisbilhotar” sem mexer muito, usando radiações! De preferência aquelas que sabemos detectar com bastante precisão: raios X, gama, e até radiações mecânicas como o ultrassom.

A ideia é incidir a radiação de um lado da parede da pirâmide e instalar o detector do outro lado… dependendo da quantidade de radiação que consegue passar é possível saber o material que tem por lá, espessura e etc. (é assim que funciona exames de diagnóstico por RX, por exemplo). O problema é que às vezes não sai nada!!! É tanto material para ser atravessado que a radiação acaba sendo absorvida totalmente.

É aí que entra a Astrofísica!

“Os raios cósmicos atingem a atmosfera terrestre com altíssimas energias, colidem com as moléculas do ar e são percebidos através dos efeitos de ionização e criação de partículas nos denominados chuveiros extensos (inúmeras partículas que atingem a superfície terrestre). O problema da astrofísica é entender como essas partículas podem ser aceleradas a energias tão altas. Quais os processos que dão origem a esses raios cósmicos? (Natale, 2003)”. Sobre os raios cósmicos

 

Enquanto a Astrofísica está desvendando como se dá a origem dos raios cósmicos e do universo, podemos usar o produto dos raios cósmicos para fazer descobertas incríveis! A técnica é conhecida como MUOGRAFIA porque utiliza um feixe de múons.

Múons são parecidos com elétrons: têm propriedades eletromagnéticas e quânticas idênticas, mas com massa 200 vezes maior. São produzidos naturalmente por raios cósmicos, se deslocam com velocidades próximas à da luz e interagem pouco com a matéria. Mas de vez em quando um múon colide de um jeito especial com um átomo mais especial ainda e então reflete, isto é, sai da direção original. Então, comparando a intensidade de um feixe de múons sem colidir com nada (no ar) com um feixe que atravessou a pirâmide de um lado a outro, é possível verificar o que tem lá dentro pela diferença, ou não!!!

E foi isso o que aconteceu com as medidas de intensidade de múons feitas por uma equipe de cientistas japoneses e franceses que investigavam o interior da Pirâmide de Quéops no final de 2017: usando muografia, conseguiram construir um modelo em 3D do interior da pirâmide. Para surpresa dos egiptólogos, tem um grande espaço vazio lá dentro! Por que???

Von Daniken nem pensou nesta possibilidade e Asimov não teve a oportunidade de usar os resultados de muografias em seus romances de ficção, mas ler a reportagem sobre esta descoberta e sobre a técnica utilizada, me fez perceber a importância de ter lido tudo o que li e refletido estes anos todos… sou grata aos dois!

Sobre a descoberta e a técnica, em português.

O artigo publicado na Nature, em inglês.

 

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

2 comentários em “Astrofísica e Pirâmides

  • janeiro 16, 2018 em 12:38 am
    Permalink

    Meu entendimento talvez seja pouco para informações tão extraordinária como estas eu espero que muitas e muitas pessoas possam usufruir de tudo isto cada vez mais! Parabéns e muito obrigado!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *