A nossa Física Quântica do dia a dia

Recentemente fui convidada a ministrar uma disciplina eletiva para adolescentes. Sem pensar muito nas escolhas dos estudantes, escrevi uma ementa para Física Quântica. Foi muito fácil justificar o porquê da necessidade de futuros cidadãos terem noções sobre a física do século XX, já que a escola, de modo geral, para na física de 1880 com o eletromagnetismo: enquanto a vanguarda da sociedade científica e uma imensa massa de empreendedores discutem os avanços da Inteligência Artificial e as relações de trabalho num futuro próximo, a escola (generalizado o termo aqui) insiste em moldes e programas tradicionais. Muito dessa insistência ocorre em função de réguas externas tais como ENEM e vestibulares.

Seria um circulo vicioso? As escolas não alteram seus currículos porque têm medo de gastar energia-tempo em assuntos que não são abordados nessas provas, o que prejudicaria os estudantes. Os elaboradores das provas não alteram os programas das mesmas porque têm medo que as escolas não deem conta de proporcionar os novos conhecimentos. Estamos estagnados!

Será que os gestores de ambas as partes sabem que o computador quântico é uma realidade – custa milhões, talvez bilhões! – e nos próximos anos o que se espera é aperfeiçoamento e uso maciço desses dispositivos fantásticos para desenvolvimento da Inteligência Artificial e para que se concretize a profecia de Vernor Vinge e Ray Kuzweil? (Singularidade Tecnológica! leia mais em Singularidade Tecnológica).

É esperado que o futuro cidadão tenha noções do advento da computação quântica e do que pode fazer a Inteligência Artificial?

Pensando em ensino de física, parece não ser suficiente uma lei nacional para mobilizar a comunidade educacional.  A Lei de Diretrizes e Bases Nacionais (9.394/96) que culminou com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), solicita que a física

“… esteja voltada para a formação de um cidadão contemporâneo, atuante e solidário, com instrumentos para compreender, intervir e participar na realidade. Nesse sentido, mesmo os jovens que, após a conclusão do ensino médio não venham a ter mais qualquer contato escolar com o conhecimento em Física, em outras instâncias profissionais ou universitárias, ainda assim terão adquirido a formação necessária para compreender e participar do mundo em que vivem. PCN, 1996.”

Posso estar enganada, mas estamos bem atrasados.

Retornando aos meus adolescentes, futuros cidadãos que escolheram a disciplina eletiva, ficaram dúvidas que me atormentaram ao longo das férias, período necessário para preparar o curso: quem são estes alunos? Com tantas outras opções de eletivas interessantes pra escolher, por que escolheram física quântica? O que lhes passa na cabeça quando pensam em “física quântica”?

Não havia outro meio de saber senão questioná-los! Fiz exatamente estas perguntas e as respostas não me surpreenderam! Muitos são movidos a vídeos do youtube, sites de notícias e séries de TV. Resultado? Para eles, vamos falar de buracos negros, viagens no tempo, teoria de cordas e universos paralelos.

Alguns (poucos) leem livros e artigos científicos. Para estes, vamos falar de partículas, dualidade, Einstein e o Gato de Schroedinger, superposição e entrelaçamento!  Ufaaa!!!

Conversando com um professor no corredor – melhor lugar para falar sobre filosofia! – “ a culpa é nossa e não é!” (Aqui, vale a interpretação do leitor).

Quanto aos meus adolescentes, de forma alguma estou decepcionada, ao contrário! Só posso agradecer a oportunidade de conversar com estes meninos e meninas e, em todos os momentos possíveis poder insistir e insistir e insistir: “estão vendo este abismo de conhecimento (veja a figura)? Percebem o quanto ainda temos que conhecer? Então!!! Vocês podem contribuir! O futuro é de vocês!”

Amo poder repetir esta frase… Amo ser a professora que sou!

Créditos da imagem: Dominic Walliman 

 

 

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

4 comentários em “A nossa Física Quântica do dia a dia

  • janeiro 31, 2018 em 8:51 pm
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    Realmente nossa física está parada.Fico muito feliz com pessoas que pensam assim vamos mostrar aos jovens a beleza da física.

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  • fevereiro 2, 2018 em 1:38 pm
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    Parabéns à PROFA. pela importante iniciativa. Na situação em que estamos no país, acho que essa “nova” física precisa ser divulgada em massa… Talvez gratuitamente pela Internet, e com conteúdo sólido mas atrativo e contextualizado, para atualizar os estudantes o quanto antes…

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