São deuses, os humanos?

Impossível não escrever sobre o momento que estamos vivendo na engenharia aeroespacial!

Impossível não falar da Falcon Heavy!

Faz anos que insisto em levar reportagens sobre ciências da internet para “dentro da sala de aula”. Ler a linguagem da ciência e relacioná-la ao dia a dia é uma competência fundamental da cidadania. É muito fácil jogar a responsabilidade do futuro da humanidade nas mãos dos jovens sem fornecer-lhes os subsídios para julgar e agir.

Não foram poucas as vezes em que uma turma inteira debateu em torno do seguinte tema: busca por outros planetas (exoplanetas). Os sites de notícias de divulgação científica não param de noticiar! Nos últimos anos, ao menos uma vez por mês sai uma notícia sobre descoberta de um novo planeta.

 A grande questão de debate em sala de aula passa longe da astrofísica.

“Como é possível gastar tanto dinheiro de governos (ou seja, nosso dinheiro) para ficar procurando planetas que talvez não possamos alcançar? E a fome no mundo, como fica? Não seria melhor usar todo este dinheiro para resolver os problemas que temos por aqui?”

Discussão maravilhosa! Prato cheio para quem se preocupa com o verdadeiro sentido de se fazer ciência! Um cidadão em formação precisa entender que a ciência pura não tem demanda: ela é fruto da nossa necessidade instintiva de entender como as coisas funcionam.

E não é de hoje que o homem quer saber se é único no universo – existiriam outros seres vivendo por esse universo? Seriam mais evoluídos que nós? Seriam parecidos conosco?

Mas para o caso da busca por planetas similares à Terra, isto é, em condições para abrigar minimamente a vida humana, há uma demanda emergente: parece que nosso planeta está apresentando sinais de desgaste, e a chance de não conseguir dar conta da humanidade, ainda em crescimento demográfico, parece baixa. Sem entrar nesse mérito (o que levaria à uma resposta óbvia ao questionamento dos alunos, já que o dinheiro gasto em busca por outros planetas poderia ser usado para melhorar este!), a possibilidade de levar o ser humano a povoar outro planeta é uma ideia fascinante! Pensar em começar tudo do zero e não cometer os mesmos erros cometidos aqui, é desafiador!

E a arqueologia já mostrou que o homem nunca teve sossego: migrou de um lado para outro desde o início da civilização. Por que ficaria quieto agora?  

É o desafio que move a humanidade!

Muito bem… apontar telescópios caríssimos para o céu e perscrutar cada pedacinho dele em busca de sinais desses planetas, é uma coisa. Outra coisa é sair daqui. Se o custo da observação e análise de dados é alto, imagine o custo de projeto e construção de naves espaciais? A NASA, a ESA e tantas outras agências espaciais têm orçamentos elevadíssimos totalmente dedicados a astronáutica, mas não sem críticas da sociedade. Desde o início da corrida espacial na década de 50 até agora, muitos recursos foram deslocados para o desenvolvimento da engenharia aeroespacial e para a instalação e manutenção da ISS, Estação Espacial Internacional.

Para que? Para que manter uma máquina enorme orbitando o planeta se o máximo que podemos fazer é alcançar a nossa Lua? Já chegamos lá! Para que mais?

Com um pouco de paciência para pesquisar é possível perceber que os benefícios para a sociedade são incontáveis! A pesquisa pura acontece lado a lado da engenharia atendendo demandas existentes e criando novas. Alguns exemplos: satélites de comunicação e meteorologia, GPS, Smartphones, alimentos liofilizados, tratamentos de câncer, lentes de contato, microondas, fraldas descartáveis, código de barras e etc.

A ISS hoje é um verdadeiro laboratório de pesquisa pura e aplicada! São centenas de experimentos do mundo inteiro acontecendo em ambiente de microgravidade totalmente controlado.

Mas, como eu disse antes, tem muita gente (e gente poderosa) que não gosta de ver tanto dinheiro de impostos aplicado em pesquisas cujos resultados diretos e indiretos não são tão óbvios e tão passíveis de propaganda em período de eleições, por exemplo. A própria NASA vem sofrendo perdas de recursos governamentais nos últimos anos.

Então chegamos ao ponto: Elon Musk e a SpaceX. Dá para acreditar que uma empresa privada poderia desenvolver o foguete mais poderoso do mundo, com características diferenciadas e menor custo-benefício que a NASA, ESA e outras?

Sim! Elon Musk conseguiu aglutinar milhares de pessoas (são cerca de seis mil funcionários) das mais variadas competências na SpaceX! E, claro, aplicou muito dinheiro.

Certamente ele e todos os seus investidores ganharão outro tanto ou maior quantidade ainda em função dos mais diferentes resultados das pesquisas realizadas até agora e também do que virá!

Momentaneamente não estou preocupada com os riscos de empresas privadas terem o domínio de tecnologias que podem mudar os rumos da humanidade porque os benefícios estão me cegando, certamente. Por outro lado, não consigo deixar de pensar que países sem tradição em desenvolvimento de ciência e tecnologia vão tornar-se ainda mais atrasados e dependentes.

E pensando no momento que o Brasil está vivendo, com cortes significativos do governo para a pesquisa, seria absurdo pensar que a nossa iniciativa privada não assumiria tantos riscos em investimentos de longo prazo? Em ciência pura? Deixarei o leitor mentalizar em cada um dos nossos grandes empresários… e responder.

Por hora, preciso soltar a imaginação e vislumbrar uma nova era! Sim, a busca por outros planetas similares à Terra já é uma realidade. Não estarei aqui para ver, mas o homem certamente colonizará Marte e sairá do sistema solar. E … sim, são deuses, os humanos…

Vida longa e próspera à humanidade!

 

 

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

3 comentários em “São deuses, os humanos?

  • fevereiro 8, 2018 em 5:30 am
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    Ótimo artigo, nos leva a uma profunda reflexão sobre a importância das pesquisas em nossa sociedade.
    Nossos empresários são aversos a riscos, em nosso país uma Embraer jamais existiria se não tivesse recebido dinheiro do governo no início de suas operações.
    Precisamos de mais acesso a capital de risco, as universidades por sua vez devem estar preparadas para receberem recursos de fundos de Endowment a fim de aplicarem esses recursos em pesquisa e desenvolvimento de ambientes propícios aos empreendedores e não apenas contarem com o valor das mensalidades. Precisamos rever todo o processo educacional universitário e desenvolvimento de pesquisas em nosso país.

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  • fevereiro 8, 2018 em 11:51 pm
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    Nossa…adorei o artigo.
    Vou compartilhar
    Que coisa linda, poética.
    Vida longa Cristiane.

    Resposta

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