A cor do som e o colorido das estátuas gregas – vale a pena levar para a sala de aula?

A luz me encanta desde sempre.

Antes de estudar física, ainda garota, enquanto estudava música no conservatório, tive o privilégio de ter como professor de piano um maestro que além de erudito, exibia grande curiosidade por filosofia e esoterismo. Com ele tive a oportunidade de conhecer sinestesia sonora – a capacidade que algumas pessoas possuem de associar a sensação de uma cor para cada som. Foi o suficiente para que durante anos eu pesquisasse esse tema enquanto estudava a natureza da luz.

Em pessoas sinestésicas existe íntima conexão entre a cor e o som. Quando se toca certa nota aparece simultaneamente certa cor.

Para Jorge Antunes, em Basbaum, 2002 (Sinestesia, arte e tecnologia) a correspondência entre som e cor não se dá no plano do fenômeno físico, mas pela ressonância em neurônios do nervo óptico, das vibrações dos impulsos nervosos no nervo auditivo.

É bom lembrar que a cor é uma manifestação eletroquímica de todo um sistema sensorial –  olhos, nervos e cérebro – e não uma propriedade da luz. E esse sistema sensorial não é capaz de analisar a luz em frequência do mesmo modo que o sistema auditivo consegue analisar o som, isto é, distribuições diferentes de comprimentos de onda de luz que chegam simultaneamente ao olho, produzem a sensação de branco. Já o sistema auditivo consegue separar as frequências, ou notas musicais, isto é, diferentes comprimentos de onda de som que chegam simultaneamente à orelha produzem sensações de sons diferentes, e não um único som!

Talvez essa diferença entre sistemas sensoriais seja o motivo para o fato de que inteligências artificiais já fazem reconhecimento de voz há anos e com bastante eficiência, enquanto o reconhecimento de imagem é relativamente recente. A impossibilidade do sistema sensorial óptico de distinguir espectros de luz não impede que a visão seja considerada um dos sentidos sensoriais mais importantes para o ser humano, e justamente por isso há um frenesi neste momento entre os entusiastas da IA, já que o sucesso em reconhecimento de imagens é eminente.

Se pensarmos na revolução que será a Singularidade Tecnológica aguardada para os próximos anos, seria bobagem esperar que tecnologias de mais de dois séculos em espectroscopia e espectrometria poderiam ser embarcadas ao olho humano?  Eu quero estar viva para ver! Ver espectros!

Enquanto isso não acontece, as tecnologias de separação e análise de ondas eletromagnéticas, entre elas a luz, são empregadas para os mais diferentes fins.

O artigo  Luz ultravioleta revela como eram de verdade as estátuas da Antiguidade Clássica, da historiadora Karina Bezerra, 2013,  mostra uma aplicação  interessantíssima de técnicas de iluminação e análise de luz em restauro de obras de arte. Vale a pena a leitura! Mas é sempre bom lembrar que não é um artigo de física, e sim, de história da arte. É nítido o esforço por parte da autora em explicar a técnica de espectroscopia. Apesar de superficial, a explicação não torna o artigo menos importante, ao contrário! O artigo demanda esforço por parte de professores no sentido de levar estas aplicações para a sala de aula! Assim como eu me interessei por luz ainda que estudando música, imagine o quanto nossos estudantes ganham em cultura e conhecimento geral quando professores versam sobre as mais variados temas de aplicação numa simples aula de física!

Física é cultura sim… física é arte… física é vida!

 

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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