Ela desafia a lei da inércia

Beatriz Alvarenga é uma daquelas pessoas cujas histórias se pode ouvir durante horas sem se cansar. Aos 95 anos, ela conta sua trajetória como se os grandes feitos que alcançou fossem atos corriqueiros, sempre deixando transparecer nos olhos, na voz e nos gestos a paixão pela física e pelo ensino. “Ela vive o ensino 24 horas por dia e passou a vida inteira querendo ver a educação melhorar”, afirma o amigo Antônio Máximo, com quem escreveu a coleção de livros didáticos Física – contextos e aplicações, best-seller na área desde 1970.

Os dois se conheceram como professores do Colégio Universitário da UFMG. Ambos se sentiam incomodados com a maneira como a disciplina era ensinada na maior parte das escolas brasileiras – sempre em sala de aula, sem aplicação no dia a dia e experimentos – e com a baixa qualidade dos livros utilizados pelos professores. Beatriz se lembra que, quando recebeu o convite do colega para produzir os volumes, ficou um pouco receosa. Com uma rotina bastante atarefada desde a faculdade, ela hesitou no início. “Era algo muito duro de se fazer. Fiquei me perguntando: será que vamos dar conta?”, recorda. Mas o amigo insistiu e ela acabou aceitando a proposta. “Eu sabia que qualquer coisa que fizéssemos seria melhor do que os livros que já existiam”, afirma Antônio Máximo.

A coleção foi publicada pela primeira vez em 1970 e até 2010 se chamava Curso de física. Segundo o professor, a cada ano são vendidos em média 1,3 milhão de exemplares, desde 2009. As obras fizeram tanto sucesso que foram traduzidas para o espanhol pela Editora da Universidade de Oxford. “Eles queriam um livro de física para a América Latina e ficaram sabendo do sucesso que a coleção teve no Brasil”, conta. Após rigorosa avaliação da comissão editorial da universidade, os livros foram lançados e distribuídos para toda a América Latina. “Os volumes tiveram mais edições em espanhol do que em português”, orgulha-se o docente.

Abaixo-assinado

Assim como no mundo editorial, Beatriz também teve muito sucesso em sala de aula. Ela começou como docente no ensino médio e migrou para a UFMG a pedido dos próprios alunos, que fizeram um abaixo-assinado propondo sua admissão nos quadros da Universidade. O segredo, diz a professora, era a aplicação da física no dia a dia, com exemplos práticos e experimentos. “A maioria dos professores ainda ensina física de forma muito matemática, com fórmulas e pouca aplicação prática. Mas essa é uma disciplina que está presente em cada momento da nossa vida, que explica tudo que fazemos”, argumenta. Preocupada em garantir o êxito dos alunos, Beatriz diz que os ajudava durante as provas, explicando as questões no quadro sempre que alguém fazia uma pergunta. O mais importante, segundo ela, era ter certeza de que haviam entendido o raciocínio por trás de cada resultado.

Depois das aulas, ela estava sempre disponível para quem buscasse mais explicações. Beatriz adquiriu um imóvel ao lado de sua casa, no bairro Floresta, para transformá-lo em laboratório. Até hoje ela recebe docentes e alunos no local, que é repleto de objetos como esferas de Hoberman, óculos 3D e eletroimãs – peças que geram campo magnético a partir de uma corrente elétrica e explicam o funcionamento dos trens que “flutuam” sobre trilhos. “Também visito escolas em Belo Horizonte e no interior”, revela.


Quem conhece a professora garante que disposição e simpatia nunca lhe faltaram. “Beatriz é muito carismática, não desagrada a ninguém. Qualquer coisa para a qual se candidatar, ela ganha”, brinca o amigo Antônio Máximo. Mas nem sempre é possível agradar a gregos e troianos. Em meados da década de 1980, no fim do regime militar, seu nome chegou a ser vetado para a Reitoria da UFMG, apesar da vitória alcançada nas urnas. Beatriz prefere não comentar o assunto, mas lembra que a escolha do representante máximo da Universidade não era muito bem definida e que depois desse episódio preferiu abandonar a política universitária. 

Numa época em que poucas mulheres trabalhavam com números, Beatriz ressalta que teve pleno apoio do pai quando decidiu cursar engenharia civil. “Ele era uma pessoa muito aberta”, diz. Farmacêutico em Santa Maria de Itabira, mudou-se para Belo Horizonte na década de 1930, em busca de educação de qualidade para os 12 filhos, dos quais seis eram mulheres. A professora garante que em sua família nunca houve distinção em função de gênero.

Em 1946, Beatriz foi a única mulher a se formar em Engenharia Civil pela então UMG, que mais tarde se tornaria Universidade Federal de Minas Gerais. Ela conta que escolheu esse curso porque era o que mais envolvia matemática, já que naquela época ainda não existia formação em Física no Brasil. Mas antes mesmo de concluir a graduação, já sabia que não atuaria na área. “Desde o começo da faculdade eu dava aulas. É o que sempre gostei de fazer”, explica.

Antes do vestibular, chegou a se dedicar ao vôlei. Já depois de formada, quando não estava em sala de aula, o que, segundo ela, era muito raro, a professora viajava em busca de locais onde a Física fosse mais difundida. Um dos passeios mais marcantes foi ao Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça, onde foi descoberto o provável Bóson de Higgs, também conhecido como “partícula de Deus”. Até hoje ela acompanha as novidades da Física por meio de revistas científicas e se dedica aos estudos, principalmente no período noturno.

Quando recebeu o pedido de casamento do marido, o professor aposentado de português Celso Álvares, Beatriz tinha 39 anos. Antes de dizer se aceitava ou não, ela deixou bem claro que não teria tempo para filhos, pois queria se dedicar à profissão.

Beatriz hoje vive cercada de sobrinhos e diz que não se arrepende da escolha.

Apelo à renovação

Há quase 40 anos, os livros didáticos escritos por Beatriz Alvarenga e Antônio Máximo figuram entre os mais vendidos da área. Só que em vez de satisfação, Beatriz revela incômodo com o fato. “Fico ansiosa porque acho que já deveria ter aparecido alguma coisa melhor. Precisamos de renovação”, afirma. A opinião é compartilhada pelo colega. “A maioria dos docentes ainda ensina física de um jeito antigo, sem sair da sala de aula”, comenta Antônio Máximo.

Os dois não esperavam que suas obras tivessem tanta repercussão, mas lembram que os livros de maior sucesso comercial ainda são os que trazem muitas fórmulas e operações matemáticas. “Como a maioria dos professores recebeu uma formação mais tradicional, o que vende mais são os livros de física tradicionais”, pondera Máximo.

Beatriz espera que essa situação mude e aconselha aqueles que não gostam da disciplina a procurarem a Física ao seu redor. Embora a coleção Física – contextos e aplicações sugira experiências e observações práticas, ainda cabe a cada professor buscar métodos diferenciados de ensino a fim de despertar o interesse dos alunos pela matéria. Nesse quesito, aos 95 anos de idade, Beatriz Alvarenga permanece na vanguarda.

Fonte: Diversa

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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