‘A escola precisa entrar na cultura digital’, diz professor

Tornar o aprendizado mais interessante é prioridade de grande parte das redes de ensino. A tecnologia pode ser uma forte aliada nesse processo, mas, em muitos casos, o uso dessas ferramentas não tem sido eficaz. Para Miguel Thompson, diretor executivo do Instituto Singularidades, reverter esse quadro passa por uma questão central: formar professores para que eles desenvolvam metodologias adequadas à linguagem das novas mídias.

Thompson discutirá o tema na mesa “ O professor do ensino médio” do Educação 360 — Jovem Tech, na próxima sexta-feira, no Museu do Amanhã. O evento é uma realização dos jornais O GLOBO e Extra com patrocínio de Sesi e Colégio pH, apoio institucional de Instituto Inspirare e apoio de TV Globo, Canal Futura, TechTudo, Revista Galileu, Unesco e Unicef.

Com a ascensão das novas tecnologias, muitas redes de ensino investiram nisso, mas não apresentaram resultados de aprendizagem. Por quê?

O professor não está acostumado com as novas tecnologias. Mas há, sobretudo, uma questão de desenvolvimento de práticas, métodos e didáticas para esses aparelhos. Não é uma questão de falta de hardware e nem de software, é falta de linguagem. A maioria dos professores não conhece esse conceito. Mais que o uso da lousa eletrônica, deve-se trabalhar a mensagem que vai ser usada nela. O professor está acostumado a ser uma única mídia em sala de aula.

Como treinar os professores para isso?

É importante transformar didáticas em elementos de entretenimento: games, cartoons, memes… Observar como a meninada está usando essa linguagem nas redes sociais para produzir riso, reação e indignação. Ainda estamos num modelo muito antigo de formação do professor, literário e expositivo. É preciso aprender com as mídias sociais e com o mundo do entretenimento. A educação tem que entender o que faz um aluno ficar dez horas assistindo a um seriado. Sugiro que possamos trazer esses roteiristas para a formação de professores. A formação tem que aprender com a Netflix.

Que elementos esses produtos trazem que captam a atenção?

As séries trazem iscas de interesse e enredos magnéticos. No ambiente on-line é possível fazer muitas outras coisas no percurso de formação. É possível trabalhar um vídeo, um game, um infográfico. Trazer as múltiplas inteligências para uma concepção de seriado e diversificar ferramentas de linguagem que não cansem o professor. A gente tem que aprender com os outros setores como trabalhar com essa mídia on-line, que pode ser reproduzida em escala, para que possamos chamar a atenção dos docentes e formá-los.

Como o Brasil está em relação ao cenário mundial no que diz respeito ao uso eficaz da tecnologia?

De forma geral, o professorado não é um segmento da sociedade muito acostumado às novas tecnologias. Mas estamos em pé de igualdade com o mundo. No Brasil, celular é um fenômeno. Somos um povo afeito à tecnologia, e isso é uma oportunidade. Mas temos alguns problemas como conexão on-line. É muito comum professor que não tem nem e-mail. É necessário que haja um grupo de formadores que também ajude os professores a começar a ter intimidade com uso desses novos aparelhos. Temos problemas de infraestrutura, boa parte das escolas não têm wi-fi, conexão.

No Brasil, há escolas que não têm nem banheiro. Como proporcionar uma realidade onde a tecnologia esteja presente?

Não adianta ficar comprando computador, tem que investir em conectividade. Os laboratórios de informática ficam fechados. Viram depósitos. Se houver um wi-fi decente, os alunos vão trazer os aparelhos para escola. Se soubermos usar um celular, vamos usar uma estratégia muito mais barata de inclusão on-line. Uma escola não ter banheiro é horrível e devemos investir nisso, ao mesmo tempo deveríamos investir na conectividade, que traz um aumento de aprendizado.

Em um mundo conectado, como captar o interesse do aluno?

É preciso desmistificar o uso do celular, muitas redes ainda proíbem isso. O estudante está em casa com todos esses aparelhos, aí ele entra na escola e é como se estivesse entrando na caverna. O professor muitas vezes não usa e, mesmo quando é permitido usar, o aluno perde o interesse. O celular é uma plataforma multimodal, tem gravador, vídeo, máquina fotográfica. O professor pode, por exemplo, criar um Facebook do Darwin, do Galileu. Está mais do que na hora de usar o celular como uma ferramenta importante de aprendizagem.

Como sanar esses problemas?

Estamos vivendo um ótimo momento, porque se descobriu a centralidade do professor no processo de ensino e aprendizagem. Antigamente, falava-se em material didático, projeto pedagógico da escola, tecnologia. Estamos vivendo um momento bacana, que é a implementação da Base Curricular. Temos que aproveitar a onda de implementação e desenvolver ferramentas on-line para ajudar a produzir conhecimento. O mundo digital na mão das crianças é intuitivo. A escola precisa entrar na cultura digital, todo mundo pode aprender em qualquer lugar.

Fonte: O Globo

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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