O poder das vacinas do século 21

A pandemia de coronavírus deste ano começa e termina com medo. Em menos de 90 dias, mais de 100 mil  pessoas e quase todos os continentes foram infectados por um vírus até então desconhecido, que gerou   milhares de mortes. Apesar de haver poucos fatores de alívio  atualmente, podemos obter alguma consolação com o fato de que já existem ferramentas para  controlar essa e qualquer pandemia do futuro: são as vacinas do século 21. 

As vacinas, tais como as conhecemos hoje, são insuficientes. Para proteger contra infecções desafiadoras como o novo coronavírus é preciso uma mudança significativa no campo de  pesquisa e inovação. A pandemia do COVID-19 pode finalmente providenciar a motivação para construir e acelerar avanços na vacinologia que podem ajudar a superar as atuais limitações. 

Um grande progresso  no desenvolvimento das vacinas modernas permitiu aos  cientistas manejarem um conhecimento profundo de genética e biologia molecular para desenvolver vacinas capazes de  imitar o modo como o corpo geralmente encontra e responde a infecções virais. Ao invés de proteínas essa nova geração de vacinas é feita de ácidos nucleicos, os blocos construtores dos genes. Na verdade, a primeira vacina que está sendo testada em ensaios clínicos contra a atual pandemia é uma vacina de ácidos nucleicos. 

As pesquisas em vacinologia também revelaram um conjunto transformador de moléculas que aumentam a imunidade, conhecidas como adjuvantes, capazes de  aumentar a qualidade da resposta imunológica. Os adjuvantes são utilizados em vacinas contra hepatite, coqueluche, tétano, HPV, tuberculose e malária. Mais recentemente, uma nova classe de adjuvantes vem conseguindo, com sucesso, aumentar a efetividade da vacina contra cobreiro (uma reincidência da catapora) entre 50% e 90%. E outras estão demonstrando grande potencial em vacinas contra HIV. Mais importante  para a pandemia atual, as vacinas com  adjuvantes podem oferecer proteção  mesmo na presença de  mutações genéticas que tornam inúteis as vacinas sem adjuvantes. Essas vacinas são mais potentes, então podemos administrar doses menores e imunizar mais pessoas, e elas podem ser estocadas por anos entre diferentes pandemias. 

Ainda assim, alguns adjuvantes cruciais não estão sendo aproveitados para criar vacinas efetivas contra o Coronavírus. A pergunta óbvia é:  por quê? Primeiro, as empresas produtoras dos únicos adjuvantes de vacinas aprovados estão encontrando dificuldade em produzir quantidades suficientes,  pois se originam de produtos naturais limitados. Segundo, o atual clima de desconfiança quanto a segurança das vacinas leva  alguns a temer a adição de adjuvantes para torná-las  mais potentes. Finalmente, existem poucos adjuvantes em domínio público que podem ser usados para aumentar a efetividade de novas vacinas contra as  pandemias. 

O presidente Trump sinalizou  que o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus é uma alta prioridade e pode ocorrer  “relativamente logo”. Ainda vamos ver se será logo  o suficiente para proteger os cidadãos mais vulneráveis do COVID-19. Mas, enquanto isso, vários passos devem ser tomados imediatamente para lidar com as lacunas na disponibilidade de vacinas para a atual e possíveis futuras pandemias. 

Investir em pesquisa e desenvolvimento. Podemos utilizar essa pandemia como motivação para financiar iniciativas que nos ajudem a compreender a concepção, a produção e a seleção de adjuvantes de vacinas modernas para combater pandemias. Um esforço conjunto  na pesquisa e criação de novas vacinas levará a uma resposta mais rápida e eficiente quando houver o próximo surto. Nesse  sentido, as vacinas de ácido nucleico estão demonstrando enorme potencial e precisam ser testadas e implantadas abertamente. Também precisamos melhorar o processo de teste, monitoramento e análise da segurança das vacinas com adjuvantes.

Criar estoques estratégicos. No caso, estoques dos adjuvantes que se provarem seguros e que puderem ser produzidos de forma rápida e em grande quantidade, a um custo baixo, a partir dos  materiais sintéticos disponíveis  atualmente. Infelizmente, não há grandes estoques deles. Precisamos criar uma reserva para permitir que tais  compostos  estejam a disposição para essa e para todas as futuras pandemias. 

Reduzir barreiras à inovação no campo das  vacinas modernas. O receio dos efeitos colaterais das vacinas vem dramaticamente impedindo o desenvolvimento de novas vacinas. Devemos desenvolver ferramentas que transmitam para o público o conhecimento acumulado  sobre segurança e efeitos colaterais. Para superar os temores associados à  pandemia do coronavírus é vital para estimular o desenvolvimento de um portfólio de vacinas seguro, flexível, rapidamente implantável e a um preço possível para enfrentar a atual epidemia. 

Sabemos que, no que diz respeito às doenças infecciosas, a história inevitavelmente se repete. Não vamos cometer os mesmos erros do passado e perder a oportunidade de garantir mais estabilidade e segurança para futuras pandemias utilizando as  vacinas do século 21. 

Corey Casper

Publicado em 30/03/2020   

Fonte: Scientific American Brasil

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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