Europa vai usar hidrogênio para retardar mudança climática

Hidrogênio no lugar do petróleo

O hidrogênio está de volta. Ou, pelo assim se pretende.

Na semana passada, a Comissão Europeia anunciou uma nova estratégia para transformar o elemento mais abundante do Universo em um meio “alcançar uma ambição climática mais alta”.

Já houve falsas largadas do hidrogênio antes, e grandes visões anunciadas de uma “economia do hidrogênio” não se concretizaram. Ciente disso, a União Europeia está adotando uma abordagem mais direcionada, lançando o hidrogênio como um meio de limpar indústrias difíceis de descarbonizar, como a siderurgia.

Caminhões trens e até navios movidos a hidrogênio também podem impulsionar a demanda pelo combustível.

Há apenas um grande problema. Embora o plano observe que o uso de hidrogênio não emite dióxido de carbono, também reconhece que a maior parte da sua produção hoje é bem suja. Globalmente, cerca de 96% do hidrogênio é produzido a partir de combustíveis fósseis, por meio de um processo conhecido como reforma a vapor do metano. Mesmo grande parte dos 4% restantes, produzidos usando água e eletrolisadores, é alimentada por usinas de carvão e gás. Os números são semelhantes na Europa, que produz cerca de 10 milhões de toneladas de hidrogênio por ano.

É por isso que a estratégia exige metas sobre o que se convencionou chamar de “hidrogênio verde”, ou “hidrogênio renovável”, produzido usando eletrolisadores alimentados por fontes renováveis de eletricidade, como solar e eólica.

Transição para a economia do hidrogênio

Segundo o relatório, a transição dos combustíveis fósseis para o hidrogênio exigirá uma abordagem gradual, em fases:

  • De 2020 a 2024, apoiaremos a instalação de pelo menos 6 gigawatts de eletrolisadores de hidrogênio renováveis e a produção de até um milhão de toneladas de hidrogênio renovável.
  • De 2025 a 2030, o hidrogênio precisa se tornar uma parte intrínseca do nosso sistema integrado de energia, com pelo menos 40 gigawatts de eletrolisadores de hidrogênio renováveis e a produção de até dez milhões de toneladas de hidrogênio renovável.
  • De 2030 a 2050, as tecnologias renováveis de hidrogênio devem atingir a maturidade e ser implantadas em larga escala em todos os setores de difícil descarbonização.”

Mesmo alguns dos mais entusiastas defensores da economia do hidrogênio acreditam que são metas ambiciosas demais, especialmente devido à queda na demanda de eletricidade causada pela pandemia de coronavírus, fazendo com que a queda na atividade econômica deixe energia sobrando.

Os ambientalistas também não gostaram do apoio ao chamado “hidrogênio cinza”, produzido com combustíveis fósseis. Mesmo contemplando tecnologias para capturar e armazenar o carbono, os ambientalistas afirmam que isso dá uma “sobrevida para a decadente indústria de combustíveis fósseis”.

Mas alguns especialistas em energia acham correto incluir o hidrogênio cinza devido à grande quantidade de hidrogênio de baixo carbono necessária e ao custo relativamente alto dos eletrolisadores.

Há outras tecnologias para apoiar a adoção do hidrogênio, como células capazes de gerar eletricidade e hidrogênio e reatores de hidrogênio verde.
[Imagem: UNIST]

Energia limpa

Outro desafio para fazer o plano decolar consiste em que uma economia do hidrogênio envolve vários aspectos.

Por exemplo, ainda que a Europa consiga construir os eletrolisadores necessários – já existem fabricantes desses equipamentos na maioria dos principais países europeus – resta a questão de saber se haverá parques eólicos e painéis solares suficientes para alimentá-los e manter seu hidrogênio limpo.

A União Europeia também lançou a Aliança pelo Hidrogênio Limpo para unir países, regiões, indústria e outras organizações para tornar a estratégia uma realidade. Os ambientalistas se alarmaram porque, embora a Aliança tenha no conselho de administração empresas de combustíveis fósseis, como a Shell, a entidade não incluiu nenhuma organização sem fins lucrativos.

Será que este plano será suficiente para tornar realidade desta vez a tão esperada economia do hidrogênio? A estratégia parece apontar na direção certa e pode ser bem-sucedida se tiver um apoio amplo dos diversos países. O foco na limpeza da indústria, por exemplo, é algo novo e lida com uma demanda que dificilmente desaparecerá da agenda devido às mudanças climáticas.

Fonte: Inovação Tecnológica

Cristiane Tavolaro

Sou física, professora e pesquisadora do departamento de física da PUC-SP. Trabalho com Ensino de Física, atuando principalmente em ensino de física moderna, ótica física, acústica e novas tecnologias para o ensino de física. Sou membro fundadora do GoPEF - Grupo de Pesquisa em Ensino de Física da PUC-SP e co-autora do livro paradidático Física Moderna Experimental, editado pela Manole.

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